Oggi, 27 gennaio comincia ufficialmente il Forum Sociale Mondiale a Belém, la più grande metropoli dell'Amazzonia e perché non dire, la capitale dell'Amazzonia. Il Forum è stato preceduto di altre diverse conferenze, incontri e raduni.
Il forum è un tentativo di discutere in una plenaria con rappresentanza mondiale le condizione di sviluppo dell'umanità, e non solo, ma anche, sentendo le minoranze e la gente più semplice, proporne delle soluzione.
La scelta di Belèm, la principale città dell'Amazzonia, non che una grandissima metropoli mondiale con oltre 2 milioni di abitanti, non è stata una scelta all'accaso. La tematica ecologia, in voga in tutto il mondo, ci tocca da vicino: come svilupparsi senza distruggere la natura? Chi vale di più, un uomo, un albero o pure un bradipo? Ovvio che non cerco di scherzare, e neanche di fare dei paragone assurdi, ma queste questione ci tocca.
la sfida che si affaccia sulle soglie sia della Casa Bianca, del Quirinale, Planalto o pure da qualsiasi centro di potere politico, è consigliare sviluppi sociale, ed economici, con la salvaguardia del patrimonio culturale del pianeta.
Ovviamente che la crisi economica mondiale non sarà trascurata, e per questo sarà un tema scottante però ne sono sicuro che anche qui ci si troverà qualcuno da mettere come colpevole.
Il forum comincerà tra un po' con una marcia che partirà della riva della Baia del Guajará, vicino al centro storico, e finirà nella piazza degli operai (Praça dos operários). Questa marcia pretende essere la più multiculturale mai fata. Io me ne vado adesso per questo avvenimento storico... che mi sta succedendo acanto...
Ciao... a presto...
P.S. Potete seguire anche sul sito www.fsm2009amazonia.org.br le notizie del forum: però in Portoghese, Inglese, Francese e Spagnolo.
27.1.09
25.1.09
Vida moderna... Qual limite?
Não sai do carro, ou sai do carro, diz, em tom imperativo, um conjunto de vozes desconhecidas que chegam de forma ameaçadora. Não se mecha! Passa o celular, passa a bolsa! Fique onde esta!
Continuamente recebemos ordens de quem não apetece dar-nos ordem. Não temos mais total ingerência sobre nossas atividades, sobre nossas ações. O mundo, o nosso mundo, esta tomando um rumo estranho à nossos anseios. Para nossos antepassados juntar-se em cidades foi uma forma de conseguir a sobrevivência com um pouco menos de esforço e com a garantia da segurança. Primitivamente reunir-se em cidade era uma forma de buscar compartilhar a proteção mutua. Com o transcorrer das eras a vida citadina viu o florescer da democracia, do direito, da arbitragem por lei... evoluímos e nos tornamos uma humanidade de cidadãos (habitantes de cidades).
Outrora uma evolução, hoje, no continuo evoluir, a vida em algumas cidades esta nos levando ao limite da barbárie. Nos reunimos em cidades para buscar proteção, hoje nos digladiamos nas cidades. Antes proteção mutua, hoje, ataques mútuos. Estamos sendo forçados "No Limite" de nossas capacidades. Sermos levados ao limite (ou nos levarmos a ele) nos despedaça, nos esfacela, nos sucede um crash, se é que posso assim usar o termo. Estando no limite buscamos culpados, vilões, vítimas, mocinhos, mas só encontramos humanidade, ombro a ombro conosco.
Somos violentos ou nos tornamos violentos? A pouco sugeri a meus alunos que assistissem ao filme "Crash - No Limite" e propus para análise duas questões: Quem são os vilões e os mocinhos do filme e ainda a fase citada por um critico que dizia: "o pior é que crash é um retrato de nossa rotina. Meus alunos tinham dificuldade de indicar vilões autênticos ou mocinhos genuínos, mas facilmente perceberam a verdade presente na frase do crítico, na verdade meus alunos estão sendo levados ao limite. De uma turma de 35 adolescentes, rapidamente contamos: 18 já haviam perdido celulares para o problema social que eles não conseguem analisar ainda. Todos tinham conhecimentos de amigos, parentes ou conhecidos que já haviam sofridos as mais variadas formas de violência. Eles, adolescentes de 12 a 14 anos, que contam ser o futuro, já desenvolveram técnicas "in"falíveis para não sofrerem violência, mas todas as técnicas implicam em limitação de suas liberdades, implicam em desenvolver preconceitos, limites, limites e limites. Aprendem rápido que o importante é se proteger "deles".
Pessoas que não trafegam por esta ou aquela rua neste ou naquele horário. O receio de quem se esta aproximando. A paranóia de ser vitima. Nos reunimos em cidades para buscar a proteção coletiva, hoje moramos nela buscando a proteção individual.
Continuamente recebemos ordens de quem não apetece dar-nos ordem. Não temos mais total ingerência sobre nossas atividades, sobre nossas ações. O mundo, o nosso mundo, esta tomando um rumo estranho à nossos anseios. Para nossos antepassados juntar-se em cidades foi uma forma de conseguir a sobrevivência com um pouco menos de esforço e com a garantia da segurança. Primitivamente reunir-se em cidade era uma forma de buscar compartilhar a proteção mutua. Com o transcorrer das eras a vida citadina viu o florescer da democracia, do direito, da arbitragem por lei... evoluímos e nos tornamos uma humanidade de cidadãos (habitantes de cidades).
Outrora uma evolução, hoje, no continuo evoluir, a vida em algumas cidades esta nos levando ao limite da barbárie. Nos reunimos em cidades para buscar proteção, hoje nos digladiamos nas cidades. Antes proteção mutua, hoje, ataques mútuos. Estamos sendo forçados "No Limite" de nossas capacidades. Sermos levados ao limite (ou nos levarmos a ele) nos despedaça, nos esfacela, nos sucede um crash, se é que posso assim usar o termo. Estando no limite buscamos culpados, vilões, vítimas, mocinhos, mas só encontramos humanidade, ombro a ombro conosco.
Somos violentos ou nos tornamos violentos? A pouco sugeri a meus alunos que assistissem ao filme "Crash - No Limite" e propus para análise duas questões: Quem são os vilões e os mocinhos do filme e ainda a fase citada por um critico que dizia: "o pior é que crash é um retrato de nossa rotina. Meus alunos tinham dificuldade de indicar vilões autênticos ou mocinhos genuínos, mas facilmente perceberam a verdade presente na frase do crítico, na verdade meus alunos estão sendo levados ao limite. De uma turma de 35 adolescentes, rapidamente contamos: 18 já haviam perdido celulares para o problema social que eles não conseguem analisar ainda. Todos tinham conhecimentos de amigos, parentes ou conhecidos que já haviam sofridos as mais variadas formas de violência. Eles, adolescentes de 12 a 14 anos, que contam ser o futuro, já desenvolveram técnicas "in"falíveis para não sofrerem violência, mas todas as técnicas implicam em limitação de suas liberdades, implicam em desenvolver preconceitos, limites, limites e limites. Aprendem rápido que o importante é se proteger "deles".
Pessoas que não trafegam por esta ou aquela rua neste ou naquele horário. O receio de quem se esta aproximando. A paranóia de ser vitima. Nos reunimos em cidades para buscar a proteção coletiva, hoje moramos nela buscando a proteção individual.
20.1.08
Conversas com senhora rendeiro...
6.11.07
Brincadeira - Tchekhov
Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante na qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.
- Deslizemos até embaixo, Nadêjda Petrovna! - imploro eu. - Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!
Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se lhe afigura como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego. Só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó - que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!
- Eu lhe suplico! - digo eu. – Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!
Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com perigo da própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.
O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso, até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!
- Eu te amo, Nádia! - digo eu a meia voz.
O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar... Eu a ajudo a levantar-se.
- Nunca mais farei isto - diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. - Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!
Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.
Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria...
- Sabe duma coisa? – diz ela, sem olhar para mim.
- O quê? – pergunto eu.
- Vamos mais uma vez... deslizar pelo morro.
Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto e da zoeira, eu digo a meia voz:
- Eu te amo, Nádenka!
Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito:
“Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?”
Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.
- Não preferes ir para casa? – pergunto eu.
- Mas eu... eu gosto destas... descidas – diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?
Ela “gosta” destas descidas, e no entanto, sentando-se no trenó, ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.
Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:
- Eu te amo, Nádia!
E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando... Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer:
“Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!”
No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: “Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N.” E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:
- Eu te amo, Nádia!
Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade eu voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento... Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!
Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos... E depois, timidamente, ela sobe os degraus... Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento... “zzzzzz..." zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei... Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender...
Mas eis que chega o mês de março, primaveril... O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo - por muito tempo, quiçá para sempre.
Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo, ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento... O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado... Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima... E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:
- Eu te amo, Nádia!
Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.
E eu vou arrumar as malas...
Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis - isto não importa - com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras "eu te amo, Nádenka", não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação da sua vida...
Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava...
Tradução de Tatiana Belinky.
- Deslizemos até embaixo, Nadêjda Petrovna! - imploro eu. - Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!
Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se lhe afigura como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego. Só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó - que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!
- Eu lhe suplico! - digo eu. – Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!
Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com perigo da própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.
O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso, até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!
- Eu te amo, Nádia! - digo eu a meia voz.
O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar... Eu a ajudo a levantar-se.
- Nunca mais farei isto - diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. - Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!
Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.
Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria...
- Sabe duma coisa? – diz ela, sem olhar para mim.
- O quê? – pergunto eu.
- Vamos mais uma vez... deslizar pelo morro.
Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto e da zoeira, eu digo a meia voz:
- Eu te amo, Nádenka!
Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito:
“Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?”
Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.
- Não preferes ir para casa? – pergunto eu.
- Mas eu... eu gosto destas... descidas – diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?
Ela “gosta” destas descidas, e no entanto, sentando-se no trenó, ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.
Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:
- Eu te amo, Nádia!
E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando... Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer:
“Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!”
No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: “Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N.” E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:
- Eu te amo, Nádia!
Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade eu voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento... Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!
Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos... E depois, timidamente, ela sobe os degraus... Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento... “zzzzzz..." zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei... Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender...
Mas eis que chega o mês de março, primaveril... O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo - por muito tempo, quiçá para sempre.
Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo, ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento... O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado... Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima... E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:
- Eu te amo, Nádia!
Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.
E eu vou arrumar as malas...
Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis - isto não importa - com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras "eu te amo, Nádenka", não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação da sua vida...
Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava...
Tradução de Tatiana Belinky.
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