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8.3.09

Sobre vilania e heroísmo...


"Há falência na criação. É por isso que ando descontente. (...) Sim, tudo esta mal arrumado, nada se ajusta a nada, este velho mundo esta empenado, e eu passo para a oposição. Tudo vai de través; o universo impacienta-se. É como os filhos, quem os deseja não os tem, quem não os deseja tem-nos de sobra. Total: eu praguejo".

O trecho acima faz parte do discurso que Vitor Hugo põe na boca de Grantaire, um de seus personagens em Os Miseráveis; e, como quero falar de miséria, lembrei dele... e o acho perfeito para subtítulo de uma das últimas cenas da tragédia humana protagonizadas nestes dias por um eclesiástico católico, uma equipe médica e uma família de miseráveis.

O bispo de Olinda e Recife, usando de suas prerrogativas, excomungou a equipe médica, a mãe, e "todos" os que participaram da interrupção de uma gravidez de gêmeos de uma criança de 9 anos violentada, desde os 6 anos, pelo padrasto.

O bispo foi coerente com seu credo, foi tenaz na defesa daquilo que acredita... mas isso não me faz achar menos vil, absurda, estapafúrdia, uma ignomínia a atitude do eclesiástico. De modo geral admiro os heróis que defendem seus ideais; mas quando essa defesa vem a despeito do respeito pelo outro, quando a cegueira "moral" passa por cima de outrem para afirmar o credo, nestes casos a vilania supera o heroísmo.

Quando ouvi a primeira notícia do caso, a coisa que mais me fazia mal era pensar na criança... pensava nela como uma de minhas alunas da 5ª série, como minha sobrinha; sentia um desconforto na espinha em imaginar esta criatura indefesa sofrendo violência a mais de três anos e ainda por cima grávida de gêmeos. A violência física me fazia tremer, mas a violência psicológica me levava quase ao pranto.

A defesa da vida foi o ensejo do bispo, mas não creio... o que foi defendido foram suas convicções; defendidas com todo o egoísmo e inconseqüência que tais defesas comportam em si. Penso que ele nem levou em conta a criança que talvez não tivesse condições de parir duas outras, ele pensou no que cria e usou de suas prerrogativas. Aborto para ele é pecado passivo de excomunhão, mas estupro de criança é só grave. Ele alija da comunhão dos santos (é isso que em tese faz a excomunhão) pessoas que cumprem leis e tentam fazer dos males o menor, mas sem pensar uma vez se quer na vítima maior. Ouvi suas entrevistas, ele, reacionário e defensor de suas convicções, só fala do pecado, do direito á vida que teriam os embriões, mas não se refere àquela que corria o risco de ser só uma casca para gerar infelizes.

Esse senhor é um vil egoísta... pertence àquela raça que mete medo, seja pela compostura moral que pela falta de poesia.

Não é possível deixar de reconhecer todo o bem que parte dos religiosos fazem à sociedade, há trabalhos louváveis e que fazem a diferença na vida de muitas pessoas. Mas esse bem pode ser feito porque é o certo a fazer... sem precisar ser justificado por qualquer ideologia religiosa. Na verdade seria perfeito se a ajuda ao irmão fosse motivada mais pelo amor à humanidade, pelo amor, que pelo desejo de ir pro céu.

Na verdade queria mesmo (e queria sem querer que as pessoas queiram o que eu quero) é que o bem ao próximo fosse feito por vontade pura e simples; por desejo de ver o outro bem e pronto. Sem outros interesses; sem pensar no que acredito e defendo; sem julgamento sem critério (pois quais eram os critérios do bispo além de uma crença)... mas como já disse Vitor Hugo através de seu personagem "este velho mundo esta empenado, e eu passo para a oposição. Eu praguejo!"